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sábado, 1 de outubro de 2016

Velhice (Pelo Que Viver?)

Pelo que viver? Por que motivo devemos continuar, se na maioria das vezes há tanta escuridão no futuro? Se o FIM é quase sempre tão escuro, sombrio e ingrato.

Minha avó, tinha tudo. E batalhou e trabalhou muito, assim como meu avô, para ter tudo que tinha. Ela é poeta. Alguém que, mesmo sem entender direito meus escritos que, na minha adolescência, eram de certa forma tétricos e lúgubres, sempre me estimulou a continuar escrevendo, seja lá o que fosse. Mas como eu dizia, ela tinha tudo, mas hoje, por ter chegado aos 92 anos, tem quase nada em comparação com antes. Hoje, como diria a Dido, na música Life for Rent, nada do que ela tem é realmente dela. Até o final do ano passado, ela tinha o maior de todos os bens, alguém que a amava incondicionalmente. Meu Avô. Mas ele sucumbiu. Morreu no final do ano passado. E ela ficou sozinha nesse mundo. Tem uma casa enorme, um bom carro, muitos bens, mas sem poder usufruir, inclusive dessa casa onde não pode morar pelo fato de casa ser enorme, por não poder mais ficar sozinha, enfim, pelo fato de ter chegado ao 92 anos.

Tentei o suicídio no dia 20 de setembro. Estarei eu realmente tão errado por isso?

Estou de volta, temporariamente a casa de meus pais, pelo menos até terminar as 4 semanas de ECT. A casa dos meus pais é de dois quartos, então, temporariamente, estou nesse quarto, que é onde minha avó mora atualmente. Onde nada que ela ela tem é realmente dela, e quando nada do que é realmente dela, ela realmente TEM. Eu entendo por que ela queira dormir o dia inteiro. Do por que fica deprimida. Não é por ela ela estar cansada. É por estar limitada pelo físico. Pois mesmo com seu cérebro falhando um pouco, mesmo ouvindo muito pouco, ainda há nela a poeta que quer ver o lado bonito da vida e criar odes a ele. Que quer ter sua própria vida e tocar de novo o amor palpável que existia, e acho que existe ainda, entre ela e meu avô. É sentir a presença e não só espiritual do meu avô.

Então hoje, acordei muito cedo e vi ela deitada tão pequenina em sua ancienidade, tão fragil em sua velhice, e entendi por que, apesar da casa ser da mãe, minha avó tenta dar ordens aqui também. Pela primeria vez consegui REALMENTE, colocar-me no lugar dela. Ontem enquanto tirava da mesa, após o jantar, disse a ela que não precisava listar o que devo tirar ou não da mesa, já que eu já fizera isso muitas vezes. Disse isso, mesmo que sem falar de forma agressiva, por que fiquei irritado. Mas agora entendo. Aí está ela, frágil e não mais realmente dona da sua vida. Não mais realmente dona de nada. Seu dinheiro, ela guarda. Usa uma parte nas depesas, como uma ajuda a minha mãe já que mora aqui agora. O resto, ela guarda. Para que, eu não sei. Minha mãe quer que ela contrate uma cuidadora, já que isso seria realmente importante para o bem estar da minha avó na sua atual idade. E talvez seja esse o problema todo. Talvez, ela guarde dinheiro, para não aceitar sua idade. Acumula, que foi o que fez durante grande parte da vida, para acreditar que tudo continua igual. Que existira um amanhã, mesmo nesse momento em que tudo é ainda tão incerto.
Então me vem a dúvida. PELO QUE NÓS VIVEMOS? E o que realmente possuímos? A única resposta que me ocorre, é que vivemos pelo amor verdadeiro. Pois o resto não é eterno. E sabendo disso, finalmente entendo a frase da música da Dido:
“Nothing I have is truly mine.”


Mas, para ser completamente honesto, não entendo é nada. Apenas sou alguém que tento encontrar algum sentido nessa mixórdia toda chamada vida. Alguma razão. Algum motivo para continuar vivendo. Para não dar um fim a tudo. Para lutar. Para não ceder à minha estupidez chamada de loucura. E, principalmente á forte companheira que vive comigo faz tantos anos: A Ideação Suicida.
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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Duplo (Dor que Corrói)



Pode ser que, as vezes, aquilo que preciso e/ou escolho e/ou peço para adquirir, não pareça essencial. Mas na maioria das vezes é. Em algumas delas ao meu trabalho, mesmo que esse trabalho não pareça verdadeiro e/ou importante e/ou sério e/ou relevante.

Mas ele é tudo isso. Mesmo que eu não tenha, por enquanto, nenhum retorno financeiro, ele é verdadeiro e importante e sério e relevante, para meu bem-estar, meu tratamento, meu coração e minha alma.

Ainda que me bem-estar, meu tratamento, meu coração, e minha alma, às vezes, não pareçam essenciais e/ou verdadeiros e/ou importantes e/ou sérios e/ou relevantes.

Mesmo que achem que sou um vagabundo, um marginal que apenas finge ter uma doença. Mesmo que eu pareça aquela Anjo Rebelde criança que finge estar doente para não ir à escola, entre ele e eu há um mundo de distância. A única coisa em comum, que permanece, é o medo, o horror, o desânimo e a desilusão com a vida. Ou talvez seja com o mundo. Quem sabe com ambos. Só que agora, depois de adulto, com as feridas do tempo, algumas cicatrizadas, outras não, podemos adicionar a revolta e o ódio. Falo desses sentimentos por que também foram semeados na infância. E muitos bem regados, pela intolerância, crueldade, preconceito, maldade e descuido de crianças e adultos que cruzaram meu caminho. As pessoas falam em lutar, como se eu fosse alguém que não fez isso, desde o jardim de infância. Pois lembro-me que desde de então já enfrentava o bullying, a rejeição, a incompreensão e a exclusão, e não só na escola.

É uma sorte eu estar vivo. Muitas crianças, adolescentes, de tanto ser espezinhados, primeiro tentando pedir ajuda, até um adulto lhe explicar o quanto seu comportamento de pedir ajuda é vergonhoso, e então, sem recorrer a mais ninguém, acabam continuando a ser pisados e humilhados até a morte. Até chegar o momento em que acreditam que realmente não valem nada, que são um lixo, que aqueles que os perseguem, são melhores e mais fortes e mais capazes do que eles. Crianças, adolescentes e adultos que escolhem a morte como suposto alívio. Como um jeito de dar um basta em tamanha degradação. Ou, ainda, livrar o mundo da imundície e inutilidade de suas presenças.

Me considero um sobrevivente.

Só que hoje em dia, o sentimento que predomina, é o medo do futuro. Não tenho nenhuma segurança. Quando digo que sou parcialmente incapaz, quero dizer que não sou suficientemente constante e resistente ao estresse, para ter um emprego fixo. Ou uma, profissão da qual DEPENDER. E que passarei fome novamente, enfeitando a situação, como se fosse uma dieta para fins estéticos.

Em vez disso posso tentar, como já quase fiz certa vez , a profissão mais antiga do mundo. Daquela vez não se concretizou. Pode ser que dessa tenha sucesso, por, em desespero, concluir que valho muito menos do que pensei naquela vez.

Provavelmente iria recair nas drogas, moraria nas ruas, sei lá, até morrer como indigente. Mais um cadáver anônimo para encher o necrotério.

Ninguém entende, ninguém traças paralelas para (ninguém quer) entender.

A dor constante que me acompanha, como um duplo, desde que me lembro de mim como ser humano, desde que tenho consciência de mim mesmo.

A dor que agora cria inimigos por todos os lados, até dentro da minha própria família, até na minha casa, solitária e vazia. Essa dor me limita.

Mas ter limitações não é algo tão diferentes das outras pessoas. Todos tem limitações. Algumas superáveis, outras não. Até por que cada indivíduo é um indivíduo. Nem sempre o que um consegue, o outro consegue também. Mesmo que sejam aparentemente iguais. Para cada pessoa existem obstáculos, uns que são transponíveis, para todas, alguns que são transponíveis para apenas alguns. E alguns que não são transponíveis para “aqueles alguns”, mas para os restantes, sim.

Infelizmente minha dor, meu duplo, não me permite ter um emprego/profissão/ofício que me sustente e dê segurança e estabilidade a longo prazo.

Essa dor, esse duplo, sussurra coisas em meus ouvidos. Ideias em meu cérebro, desconfianças em meu senso crítico, até conseguir que todos estejam contra mim e eu não suporte mais. Ela me distrai, confunde, amedronta, corrói, destrói.

Porra, é tão difícil de entender, que fica quase impossível fazer certas coisas, enquanto você é distraído, confundido, amedrontado, destruído e corroído por dentro? E, para aquelas pessoas que pensam ou falam “Mas tu consegue ouvir música, ver TV.”:

Deixem de ser burros. Não façam leitura seletiva. Leiam o texto todo e entenderão. E só para saberem, dependendo da época, da fase, nem ver um filme eu conseguia.

Desculpem o drama. Beijos aos que lerem.
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sexta-feira, 27 de maio de 2016

Mutilações (Derrotas Vitoriosas)



Anteontem me cortei de novo. Junto com a sensação de derrota, sinto-me vitorioso. Não quebrei nenhum objeto que me é caro, não cortei meus quadros com estilete como sinto vontade nessas horas, não briguei, não matei, agredi, seja física ou verbalmente, ninguém. 

Assim como se, caso eu me suicidasse, creio que no momento que estivesse no limiar, sentiria, além da óbvia derrota minha para o mundo, que venci, pois de qualquer forma, quaisquer que fossem as novas dificuldades que encontraria no outro lado (se houver outro lado), não seriam dificuldades arquitetadas por ELES. Eu estaria fora do alcance DELES e de suas conspirações. DELES e de seu controle. DELES e de sua falsidade e frieza calculista. Eu estaria além da incompreensão DELES. Da ignorância seletiva da qual ELE às vezes parece se orgulhar.

E isso tudo é para TI e para todos que te ajudam no teu plano absurdo, pelo fato de dependerem de TI (assim como eu), mesmo que não concordem com tua visão distorcida da minha doença e da realidade da qual ela faz parte. Por esse motivo visto o mesmo figurino que tu nessa encenação da qual fazemos parte em nossa família. Visto a falsidade e a frieza, mesmo que não consiga ser tão calculista quanto seria o necessário para não me machucar.

Então me corto e deixo claro: É para ti que faço isso. Para TE sinalizar. Para TU saber que caso um dia eu morra por minhas próprias mãos, houve 3 culpados. Minha doença, eu mesmo e por último, mas não menos importante TU. É muito difícil para mim, dizer que TE amo. Mas eu amo. Porém, por tudo que TU já fez até hoje na minha vida, nesse “tudo” que em muitos momentos foram tipos de mutilações, TE odeio com a mesma intensidade. TU disse que eu devia procurar temas mais iluminados para meus trabalhos de pintura, mas a verdade é que para cada mutilação que houve desde que me entendo por gente, houve também sangramentos, hemorragias internas em mim. Sangue que nunca saiu. Sangue que secou e transformou-se em sombras que habitam o âmago de meu ser. Quando sangro, meu sangue é negro. Como a tinta que eu costumo usar em minhas obras.

Me cortei, mas superficialmente. Nada preocupante. Meus únicos medos (desejos?) é de morrer de tétano, ou de cortar fundo demais, ou no lugar “errado”. Mas há certos medos que consigo superar, esse é um deles. Viu, apesar de tudo, TU também me inspira vencer meus medos, viu, amado, PAI?
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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Relato de Um (Quase) Suicídio



Estou eu, aqui, voltando ao assunto Suicídio. Mas acho adequado, já que hoje é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, no Setembro Amarelo, um movimento mundial criado para promover a discussão do assunto, a conscientização da população, e a prevenção do mesmo. Ás vezes, as pessoas não entendem o que passa na cabeça de uma pessoa que tenta se matar. Muitas vezes, quem faz isso, é vítima de preconceito, taxada de fraca, de carente de "atenção", seja antes ou depois da tentativa. As vezes, antes de chegar as vias de fato, algumas pessoas tentam conversar com alguém, porém a incompreensão é como uma barreira que faz o suicida sentir-se ainda mais culpado, e, em muitos casos, tentativas de fazê-lo ver as coisas "em perspectiva" só aumentam seu sentimento de inadequação e desvalia. Abaixo, o relato de como foi minha tentativa e o que eu senti. 




"Está tudo tão confuso. Estou aqui na casa do vô e da vó. Acabei de lembrar, não sei bem porque, os momentos antes de tomar os medicamentos que configuraram a tentativa de suicídio de uns dias atrás. Me lembrei do momento em que, calmamente, tirei as embalagens de medicamento da caixa organizadora onde ficavam. De quando tranquei a porta do quarto, liguei a música do celular e coloquei os fones. Sentado na cama, tive aquele momento de dúvida, que deve dar em todo mundo que faz isso. Tirei as cartelas das caixas e fiquei encarando-as. Sem chorar, para não ser ouvido, comecei o trabalho repetitivo, chato, frenético, assustador, que eu odiaria (não gosta de trabalhos repetitivos), caso não fosse o último que eu faria. Não lembro quantas caixas foram, mas agora sei que foram insuficientes. Lembrei agora de alguns anos atrás, quando eu tinha uma reserva imensa de remédios que eu tomava na época e tinha conseguido de amostras. Eram muitas caixas de um medicamento forte. Muitas mesmo e eu os escondia no meu quarto. Um dia uma pessoa encontrou e me perguntou por que os guardava escondidos ali. Respondi, aparentemente brincando, mas dizendo a verdade: "Ora, para o caso de querer abortar a missão."

O detalhe é que na época eu estava bem. Como agora.

A verdade, é que esse pensamento me acompanha vida inteira, desde que me entendo por gente, e humano consciente e pensante. Como se a ideação suicida fosse uma segunda natureza, uma parcela daquilo que define quem sou, da minha essência. E tem uma parte minha que luta contra "minha luta para arrancar esta essência", que me faz sentir que isso seria como me mutilar. Não cortes de estilete no braço, mas um braço ou uma perna ou ambos arrancados.

Portanto, tomei a decisão. Não total. Não era uma escolha total, era mais com uma roleta russa. Na verdade tive tanto medo, principalmente de ficar vivo em uma situação ainda pior do que aquela na qual me encontro, por ter tomado o suficiente mas ter sido salvo e ficado sequelado, que deixei duas caixas do medicamento intocadas. Mas voltando ao relato, tomei o primeiro gole da minha garrafa d'água e engoli cerca de três quartos dos comprimidos. Daí fui na sacada sentei e a Laura, minha gata, que estava o tempo inteiro do meu lado, subiu no meu colo mais uma vez. Depois voltei, tomei o resto dos comprimidos, tudo ficou nebuloso e não me lembro de mais nada."




E esse é o relato. Vou deixar que ele fale por si. E o fato de eu estar aqui escrevendo, fale por mim e pelo que sinto agora, pós internação e pós ECT. Beijos ao que lerem.





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