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terça-feira, 5 de novembro de 2019

Irônico

É tão estranho. Se bem que sim, é estranho, mas acredito que talvez irônico seja uma palavra melhor. É incrivelmente irônico que tenha tanta gente com doenças que atacam o aspecto físico, sejam terminais, crônicas, algumas extremamente debilitantes, outras autoimunes, pessoas buscando por aí ou se submetendo a tratamentos para continuarem vivos, gente lutando com todas as forças, resistindo, se negando a deixar que as limitações que a vida impõe a elas impeçam que tenham uma vida normal. Gente que muitas vezes, independente de do quanto lutaram, tem que encarar e aceitar a morte.
E que, enquanto isso, tenha eu. Alguém que mais de uma vez buscou a morte, que mais de uma vez uma vez desistiu de tudo. Que mais de uma vez tomou overdoses ou então grande quantidades de medicamentos, e que a morte rejeitou uma, e outra e outra e outra e outra e outra vez. De acordo com os cálculos dos meus pais foram seis vezes. Eu, para ser sincero, já nem lembro mais quantas foram. Talvez por ter feito sessões de ECT que me deixaram lacunas horríveis em minhas memórias, ainda que, lentamente, esteja tudo me voltando agora, que nem diz na música da Celine Dion. Mas, na realidade nem tudo está voltando. Nem todas lembranças voltam com todos os contornos definidos. Algumas lacunas permanecem, ainda que eu não saiba por quais critérios são escolhidas as que ficam comigo e as que vão para o limbo do esquecimento. Ou se as que vão, voltarão algum dia.
E a verdade é que não existe esse motivo plausível para que os outros compreendam, essa razão concreta para eu querer tanta assim morrer. Há GATILHOS, mas não uma verdadeira motivação que eles considerem palpável, crível. Óbvio que o sofrimento existe, mas ele existe também para tantas outras pessoas... E, já que meu sofrimento em si é uma doença, ainda que invisível aos olhos, ela só se manifesta fisicamente quando eu provoco essa manifestação. Quando eu me corto ou tomo uma quantidade absurda de remédios, e observo, como se o mundo estivesse em câmera lenta, o sofrimento nos olhos de outras pessoas por quê, naquele instante, ela realmente veem meu sofrimento. Ele está estampado em mim e eles não tem como negar que há algo de errado.
Claro que sempre tem aqueles que desejam que eu tivesse conseguido meu objetivo com a overdose, ou que os cortes tivessem sido mais fundos ou no sentido certo para que eu sangrasse até morrer.
Eles não entendem. São demasiadamente obtusos. Existe dentro mim mais de uma entidade: Existe a que está aparentemente sob controle, ainda que seja “só por hoje”, que é a dependência química; Tem também e doença que mencionei antes, que me faz querer morrer, querer desistir de tudo, me machucar, sumir, deixar de existir completamente, tudo para acabar com o sofrimento, o mesmo sofrimento que citei, que os outros não veem ou entendem; E, por fim, tem eu, que lutei boa parte da minha vida contra a primeira, e praticamente a vida inteira contra a outra.
Uma luta extramente inglória e ingrata, pois quando venço essa luta, acham não fiz mais do que minha obrigação em continuar vivo. E nas vezes que o sofrimento chega a um nível insuportável, e acabo sendo nocauteado pela doença, desistindo, me deixando guiar por ela e me machucando mais do que apenas emocionalmente, as pessoas me julgam e condenam. Se eu morresse, diriam que fui fraco. Mas como mais uma vez sobrevivi, por eu seguir vivo, dizem que sou sem vergonha, vagabundo, manipulador, fraco, também, e que eu não queria morrer. Estão certos, em parte. EU não quero, mas as outras entidades que povoam meu interior, pensam diferente. A dor, a vergonha, minha autoestima destruída por todos os anos de ódio gratuito que jogaram, impuseram, enfiaram em mim, e também minha herança genética, pensam diferente. Sei que deveria me fortalecer com todos esses anos de ódio, exclusão, humilhações, e torturas psicológicas, e me fortaleço, mas não cheguei a um nível onde joguem pedras em mim e não sinta a dor. Cada uma delas me atingem e sinto onde me atingiram, e sangro. Sim, eu tento fugir, mas aqueles que jogam as pedras estão em um círculo em torno de mim. Portanto, acabo, mesmo que não queira morrer, deixando que a doença guie minhas mãos, as quais pegam os remédios em um punhado, depois enchem um copo de água para eu beber e continue, punhado após punhado, até não haver mais nenhum. Até chegar ao nível tóxico. Depois fique uma quase uma hora chorando na escuridão, temendo a chegada do Anjo Negro que irá me levar uma escuridão maior ainda, rezando a Deus para que Deus, ou outro lado, ou céu, ou inferno, para que nada disso exista. Que eu apenas me desfaça lentamente até não haver mais nada de dor, de medo, de ódio, de sofrimento. Até não haver mais nada de mim para ser julgado pelo mundo.
Mas não é irônico? EU fiquei aqui, mais uma vez, aparentemente sem sequelas, enquanto pessoas com doenças que destroem seus corpos, pessoas que lutam contra com todas as forças para ficar, que se agarram à vida com tudo que tem, acabam perecendo, sem chance, sem possibilidade de que os esforços delas resultassem em algo. Talvez, se eu tentasse de novo, não fosse assim. Mas não é o que eu quero. TEM QUE HAVER UM SENTIDO. Tem que haver um PODER SUPERIOR. Seja Deus, Deusa ou que nome as pessoas derem a ele. Tem que haver algum sentido para tantos partirem e eu estar aqui.
A verdade é que após cerca de quarenta minuto minutos sentado no sofá, no escuro, tentei pesquisar no Google para confirmar que a dose de medicamentos que tomei era letal ou tóxica, enfim, se ia me matar. Eu sabia que era, mas havia algo de errado. Eu estava vivo. Para minha surpresa, quando fiz a pesquisa, obtive o resultados, mas apareceu no topo da página, um telefone, o 188, Centro de Valorização da Vida. E o meu eu saudável, desesperado com o que meu eu doente havia feito, ligou e pediu ajuda, tendo sido salvo por um anjo em forma humana, com quem provavelmente jamais falarei novamente, mas que me escutou, não me julgou, me orientou e que depois de me conduzir de volta ao mundo dos vivos que querem viver, com sua delicadeza, empatia e sensibilidade, me orientou como proceder para não acabar morrendo. E continuou a me ouvir, me sondando sobre a quem eu podia recorrer, até que no fim resolvemos o que fazer e liguei para a pessoa que foi na minha casa e me levou ao Pronto Socorro, onde fiquei por sete dias.
Faz oito dias que saí de lá e só consigo até agora ver a ironia de tudo isso. O sentido ainda não está claro. Não sei se um dia estará. Mas quero buscá-lo. Tem que haver um, ainda que talvez eu só o conheça quando partir desse mundo. Sim, falo de quando eu morrer. Não é o que quero agora. Morrer. Quem sabe um dia, provavelmente, mas, se tudo der certo, não será por minhas próprias mãos.

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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Paranóia Matinal



Ontem de manhã tive uma pequena grande amostra de como pode um dia ser minha vida. Revivi a forma como ela estava antes da internação e do ECT.

Primeiro foi a minha água. Costumo tomar água direto de uma garrafa de 1,5 que encho naquelas bomba de 20 litros que temos aqui em casa. Várias vezes procurava minha água e quando me dava conta estava em algum lugar da cozinha, ou da sala, próximo do local onde Clarisse, a moça que trabalha para nós, estava ou fica grande parte do tempo. E normalmente, quando a encontro tem apenas um quarto da quantidade de água da garrafa. E eu tenho um problema sério de urgência na hora de urinar. Daí, somei 2 e 2 e deu 5,obviamente. Ela coloca diurético na minha água. Feita essa constatação, que já é antiga, pois antes do ECT eu concluíra a mesma coisa, abriu-se um leque de outras possibilidades.

Uma de minhas gatinhas, de acordo com minha percepção, fica meio”lerda e deprimida”, quando Clarisse está aqui. Minha gatinha também está bem mais magrinha, comendo normalmente. Logo, fica óbvio, nossa funcionaria está dando veneno para ela!

Também é um saco o que passou a acontecer com nossos aparatos eletrônicos que possuem cabos. Os cabos dos meus fones quebrando, do mouse e dos carregadores da minha mãe tendo o fio desencapado e por aí vai. Os controles remotos funcionando com muita dificuldade, tendo que apertar os botões lá no fundo, mesmo quando trocamos as pilhas.

E então eu percebo que não tomei os meus remédios nessa manhã. Às 11 horas.

Sabe o que é mais difícil? É você pensar isso tudo de uma pessoa que você gosta. Que no geral sempre que pôde, “ até onde você tem certeza”, foi legal com você. Tratou você bem, conversou, foi amigável. Daí eu penso que não adianta, até do meu pai e da minha mãe penso coisas absurdas, que não me parecem absurdas, no entanto. A única coisa que me faz ter um discernimento e chamá-las de absurdas (não considerá-las, veja bem), são os medicamentos. Eles me presenteiam com o benefício da dúvida nesses casos.

Por que mesmo quando os utilizo, continuo tendo esse tipo de sentimento, o que muda é a relevância que eles tem para mim e para meu dia. O que muda, é que consigo, mesmo cheio de dúvidas, ser amigo da Clarisse e tratá-la com carinho. O que muda é que consigo tratar meu pais com, bem, como meus pais.

O que posso dizer? Maldita genética, maldita maconha, maldito câncer (que leva aqueles que amamos), maldito transtorno esquizoafetivo!

Ou se for tudo realidade, maldita Clarisse, malditos pais, maldito câncer (que leva aqueles que amamos), maldita conspiração!

E ao analisarmos vemos que a única coisa em comum em “ambas realidades”, é o maldito câncer, que leva aqueles que amamos. Que levou meu “Príncipe Improvável”. Mesmo isso, houve vezes que duvidei (e adorei sentir essa dúvida), que ele tenha realmente morrido. Cogitei se não foi tudo um teatro. Mesmo aquela cena no hospital, quando vi o corpo dele funcionando a base de aparelhos e pensei “Ele não está mais aí”. Quando eu olhei e percebi, que dissessem o que dissessem, quando segurei a mão dele e rezei e disse o quanto o amava, entre outras coisas, ele já estava morto. Só o que restara era uma casca vazia. Mesmo aquele corpo no caixão, que para mim nada mais era que um boneco de cera.

O mais difícil, é que as pessoas que olham de fora, nem imaginam todo esse mundo que se passa dentro de mim. E mesmo pessoas que deveriam saber, ou pelos menos imaginar, quando eu começo a falar sobre alguns desses pensamentos, ao invés de me ajudar, seja ajudando a enxergar além ou apenas ouvindo, preferem me censurar, chingar e tentar me fazer sentir uma merda inútil e ingrata que reclama de barriga cheia.

E é isso aí por hoje. Beijos aos que lerem.
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quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Relato de Um (Quase) Suicídio



Estou eu, aqui, voltando ao assunto Suicídio. Mas acho adequado, já que hoje é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, no Setembro Amarelo, um movimento mundial criado para promover a discussão do assunto, a conscientização da população, e a prevenção do mesmo. Ás vezes, as pessoas não entendem o que passa na cabeça de uma pessoa que tenta se matar. Muitas vezes, quem faz isso, é vítima de preconceito, taxada de fraca, de carente de "atenção", seja antes ou depois da tentativa. As vezes, antes de chegar as vias de fato, algumas pessoas tentam conversar com alguém, porém a incompreensão é como uma barreira que faz o suicida sentir-se ainda mais culpado, e, em muitos casos, tentativas de fazê-lo ver as coisas "em perspectiva" só aumentam seu sentimento de inadequação e desvalia. Abaixo, o relato de como foi minha tentativa e o que eu senti. 




"Está tudo tão confuso. Estou aqui na casa do vô e da vó. Acabei de lembrar, não sei bem porque, os momentos antes de tomar os medicamentos que configuraram a tentativa de suicídio de uns dias atrás. Me lembrei do momento em que, calmamente, tirei as embalagens de medicamento da caixa organizadora onde ficavam. De quando tranquei a porta do quarto, liguei a música do celular e coloquei os fones. Sentado na cama, tive aquele momento de dúvida, que deve dar em todo mundo que faz isso. Tirei as cartelas das caixas e fiquei encarando-as. Sem chorar, para não ser ouvido, comecei o trabalho repetitivo, chato, frenético, assustador, que eu odiaria (não gosta de trabalhos repetitivos), caso não fosse o último que eu faria. Não lembro quantas caixas foram, mas agora sei que foram insuficientes. Lembrei agora de alguns anos atrás, quando eu tinha uma reserva imensa de remédios que eu tomava na época e tinha conseguido de amostras. Eram muitas caixas de um medicamento forte. Muitas mesmo e eu os escondia no meu quarto. Um dia uma pessoa encontrou e me perguntou por que os guardava escondidos ali. Respondi, aparentemente brincando, mas dizendo a verdade: "Ora, para o caso de querer abortar a missão."

O detalhe é que na época eu estava bem. Como agora.

A verdade, é que esse pensamento me acompanha vida inteira, desde que me entendo por gente, e humano consciente e pensante. Como se a ideação suicida fosse uma segunda natureza, uma parcela daquilo que define quem sou, da minha essência. E tem uma parte minha que luta contra "minha luta para arrancar esta essência", que me faz sentir que isso seria como me mutilar. Não cortes de estilete no braço, mas um braço ou uma perna ou ambos arrancados.

Portanto, tomei a decisão. Não total. Não era uma escolha total, era mais com uma roleta russa. Na verdade tive tanto medo, principalmente de ficar vivo em uma situação ainda pior do que aquela na qual me encontro, por ter tomado o suficiente mas ter sido salvo e ficado sequelado, que deixei duas caixas do medicamento intocadas. Mas voltando ao relato, tomei o primeiro gole da minha garrafa d'água e engoli cerca de três quartos dos comprimidos. Daí fui na sacada sentei e a Laura, minha gata, que estava o tempo inteiro do meu lado, subiu no meu colo mais uma vez. Depois voltei, tomei o resto dos comprimidos, tudo ficou nebuloso e não me lembro de mais nada."




E esse é o relato. Vou deixar que ele fale por si. E o fato de eu estar aqui escrevendo, fale por mim e pelo que sinto agora, pós internação e pós ECT. Beijos ao que lerem.





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