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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Desvanecendo (O Olhar Que Perdi)



Mexendo nos meus cadernos achei esse poema, que escrevi no auge do meu período de drogadição. Dei uma boa polida nele e aí vai:



Desvanecendo (O Olhar Que Perdi)


Meu mundo descontruo lentamente
Pela ambição de vê-lo
Com olhar de criança
Que jamais será meu novamente


Sem dificuldade me desfaço
Das poucas coisas que me esforçando,
Contra tudo consegui,
Conquistar passo a passo


É mais fácil deixá-lo morrer
O mundo doente
Caminho para a luz
Da alma se desvanecer

Sem descanso, sempre a lutar
Olhos secos, olhar sóbrio
Tudo aquilo que não suporto
Que mais quero abandonar
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terça-feira, 16 de agosto de 2016

Plano B (Segurança)




Mesmo que as vezes eu pense, diga, escreva que te odeio, ou aja como se isso fosse real, a verdade é que a maior parte de mim, te ama. O que estraga tudo é precisar e depender completamente de ti.

Aquele dia que eu falei que caso tu e a mãe morressem, “eu estaria fudido”, não quis ser e parecer mesquinho. Não estava pensando em herança ou coisa do gênero, muito menos desejando a morte de ninguém. Estava, na realidade, atestando o quão frágil é minha situação nesse mundo. O que me deixa me amedronta terrivelmente.

Em relação a meus sentimentos por ti, o que me deixa furioso é saber que, provavelmente, jamais vou corresponder ás tuas expectativas em relação a mim. E isso é horrível, pois já tenho experiência em não corresponder as expectativas das pessoas. Desde que me entendo por gente, pareço, dentre meus irmãos, primos, colegas de creche ou escolinha ou colégio, ser o que mais se afasta de encaixar-se nos moldes que tu, a mãe, e parece que a maioria dos adultos e o mundo desejavam que nos encaixássemos.

NOVIDADE: Isso não dói só em ti. Dói, talvez mais ainda, em mim.

Então me vejo hoje em dia nessa situação, onde eu sei que as probabilidades de corresponder ao que silenciosamente esperam de mim são quase nulas e as de que tu aceite isso e o fato de que tenho uma doença, atestada por diversos profissionais, que me impede de fazer muita coisa, também.

A raiva, a fúria que sinto, é por todos os motivos acima. É por saber que alguém que eu tanto busquei aprovação, ainda que soubesse não estar fazendo aquilo que esse alguém aprovasse, mesmo depois de todo esse tempo e (supostas) mudanças de ponto de vista, continua a me aprovar apenas parcialmente. Pois não aceita que tenho uma doença e, mesmo ele tendo possibilidade para tal, não me ajuda a pelo menos tentar criar uma rede de proteção para o caso de ele ou a mãe virem a faltar.

Ou seja, não existe um “Plano B”. Para falar a verdade, sequer existe um “Plano A”. Ao mesmo tempo que minha vida é estável, é uma bagunça no quesito segurança.

E que seja o que Deus quiser. Beijos ao que lerem.


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sexta-feira, 27 de maio de 2016

Mutilações (Derrotas Vitoriosas)



Anteontem me cortei de novo. Junto com a sensação de derrota, sinto-me vitorioso. Não quebrei nenhum objeto que me é caro, não cortei meus quadros com estilete como sinto vontade nessas horas, não briguei, não matei, agredi, seja física ou verbalmente, ninguém. 

Assim como se, caso eu me suicidasse, creio que no momento que estivesse no limiar, sentiria, além da óbvia derrota minha para o mundo, que venci, pois de qualquer forma, quaisquer que fossem as novas dificuldades que encontraria no outro lado (se houver outro lado), não seriam dificuldades arquitetadas por ELES. Eu estaria fora do alcance DELES e de suas conspirações. DELES e de seu controle. DELES e de sua falsidade e frieza calculista. Eu estaria além da incompreensão DELES. Da ignorância seletiva da qual ELE às vezes parece se orgulhar.

E isso tudo é para TI e para todos que te ajudam no teu plano absurdo, pelo fato de dependerem de TI (assim como eu), mesmo que não concordem com tua visão distorcida da minha doença e da realidade da qual ela faz parte. Por esse motivo visto o mesmo figurino que tu nessa encenação da qual fazemos parte em nossa família. Visto a falsidade e a frieza, mesmo que não consiga ser tão calculista quanto seria o necessário para não me machucar.

Então me corto e deixo claro: É para ti que faço isso. Para TE sinalizar. Para TU saber que caso um dia eu morra por minhas próprias mãos, houve 3 culpados. Minha doença, eu mesmo e por último, mas não menos importante TU. É muito difícil para mim, dizer que TE amo. Mas eu amo. Porém, por tudo que TU já fez até hoje na minha vida, nesse “tudo” que em muitos momentos foram tipos de mutilações, TE odeio com a mesma intensidade. TU disse que eu devia procurar temas mais iluminados para meus trabalhos de pintura, mas a verdade é que para cada mutilação que houve desde que me entendo por gente, houve também sangramentos, hemorragias internas em mim. Sangue que nunca saiu. Sangue que secou e transformou-se em sombras que habitam o âmago de meu ser. Quando sangro, meu sangue é negro. Como a tinta que eu costumo usar em minhas obras.

Me cortei, mas superficialmente. Nada preocupante. Meus únicos medos (desejos?) é de morrer de tétano, ou de cortar fundo demais, ou no lugar “errado”. Mas há certos medos que consigo superar, esse é um deles. Viu, apesar de tudo, TU também me inspira vencer meus medos, viu, amado, PAI?
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sábado, 9 de abril de 2016

Então, Quando Tudo Parece Bem...



Quarta-feira, ao acordar, encontrei metade de uma barata no banheiro. Obviamente foi minha caçadora, a Sarah, que a caçou e deixou lá o troféu, já que normalmente sou eu que junto com um papel e coloco no lixo do banheiro. Quando andei pela casa descobri que em vários pontos havia uma espécie de vômito cremoso esbranquiçado.EU já sabia que era da Sarah, ou por que imaginava ter algo a ver com as baratas que ela costumava caçar, ou por intuição, sei lá.

Quando coloquei comida ela não veio correndo como de costume. E me pareceu um pouco prostrada, sonolenta demais e enjoada. Resolvi que ia observar. Ela vomitou mais uma vez. Resolvi que se ela vomitasse novamente, eu iria levá-la à veterinária. Ela não vomitou. Decidi esperar para ver se teria febre ou se melhoraria do abatimento. Quinta-feira ela me pareceu melhor, e como eu tinha compromisso de manhã e de tarde, não tinha como levá-la ao veterinário. Ao voltar para casa, quase à noite, me pareceu ,mais fraquinha ainda do que quarta-feira.

Ontem de manhã cedo a levei ao veterinário. Ela ficou lá e eu tive que ir para a aula de pintura à tarde. Liguei no fim da tarde para ver como estava, e novamente hoje de manhã. Quando a deixei na lá, não me despedi. Indo embora, a meia quadra já da PETSHOP, percebi isso e pensei, realmente, em voltar para dar um beijo nela e um olhar para ela, mesmo pensando que a veria no dia seguinte.Mas desisti, pois estava COM MEDO DE ME ATRASAR. É Incrível como a intuição às vezes funciona que é uma maravilha e a gente nem dá bola para ela.




Recebi a noticia hoje, pela minha mãe que veio pessoalmente me informar. Fui na veterinária, vi o corpo, chorei. Toquei, beijei. Mas como das outras vezes, eu sabia que não era ela que estava ali. Era apenas e somente uma linda carcaça. Apenas a roupinha que ela usou aqui na terra. A Sarah verdadeira, tá no céu, onde tem árvores de Whiskas sachê, e grande campinas, com grama e mato para ela comer e arbustos dos quais brotam bolinhas de papel. Onde gente como meu avô e meu amigo, ambos falecidos,vão arrancar essa essas bolinhas e jogar para que ela busque. E onde, ela finalmente, vai conseguir pegar o próprio rabo.

Quanto ao que levou a esse óbito,não tem muita explicação. Ela estava com anemia e um pouco desidratada. Também emagrecendo, isso eu já tinha percebido, mas achei que fosse coisa da mudança, da adaptação ao fato de eu vir morar sozinho, tendo trazido minhas filhas felinas junto. Talvez, eu pensava, apenas ela estivesse se adaptando aos poucos, e por isso sentindo menos fome. E olha que eu via ela comer. Eu via ela beber água. Mas aparentemente, não o suficiente. Não sei. A veterinária ficou tão chocada quanto eu. Vão fazer uma necropsia para tentar descobrir o que aconteceu.

A Sarah sempre foi meio frágil, ao mesmo tempo em que era arredia. Pelo menos a que pegássemos ela no colo. Carinho era só quando ELA queria.Que colo, que nada, ela gostava mesmo era do quentinho da parte de cima do subwoofer do meu “Home Teather”.

Estou muito triste e sei que, no dia a dia, essa tristeza vai se agravar por conta das inúmeras lembranças de coisas cotidianas que remetem a ela.

Nós adotamos em uma pet shop, com um mês de vida. E sabe onde ela morou os quinze dias desse primeiro mês de sua vida? Na rua. Como se diz, na sarjeta. A abandonaram Bebê ainda na rua para morrer. Bom, falharam. Ela sobreviveu. Não sem seus traumas, mas sobreviveu. Acabou sendo uma gata meio espiada, que se assustava com qualquer barulho ou movimento brusco. Não pagava imposto para sair correndo, “fugida” e se esconder.

Mas também fico feliz, pois graças a meu pai e minha mãe, e um pouco a mim também, ela teve o resto de sua curta vida cheia de amor, carinho, atenção, comida da melhor qualidade (às vezes até rolando uma Whiskas Sachê), corridas e brincadeiras com sua maninha, Lana, e principalmente brincadeiras com bolinhas de papel (era um sarro, a gente mal amassava um papel e ela já achava que era para buscar bolinha). Ou seja, depois daqueles quinze e horríveis primeiros dias de sua vida, ela foi feliz na maioria do tempo restante.

Espero que esteja ainda mais feliz lá em cima. E que no futuro eu a encontre e possa pegá-la no colo e acariciá-la, sem que ela estremeça como se alguém, do seu triste inicio de vida, fosse machucá-la.



SARAH, TE AMO.



Beijos aos que lerem.


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terça-feira, 5 de abril de 2016

Eu quero partir (Vazio)



“Eu quero partir, pois nada tem significado. Independente de eu ir ou não. O Vazio vai estar ali e me seguir para onde eu for nesse mundo. ELE é eterno, eu não. Tem que haver um alívio.
Mas não há. O mundo se repete todo dia, com pequenas variações, para dizer que foi ontem, hoje ou amanhã. Mas é sempre igual.
E sem sentido. E na superfície. Mentira. Plástico. Artificial. Nada do que eu faça pode mudar aquela sensação: a dor, o sofrimento, a miséria e a solidão de saber que ninguém lhe entende.
Preencho meus dias superficiais (de mentira), com atividades superficiais (de mentira), quando na verdade meu maior medo e meu maior desejo são pela única coisa que é imutável e inevitável nessa vida.
Tudo se resume a isso: A morte. E como vai agir em relação a ela.
Eu a temo, mas também a cultuo, pois pode estar nela o alívio eterno da não existência.  Do nada. Não há Vazio, onde não há nada. Ou melhor, há. Mas ninguém para senti-lo.

Vontade de me machucar.”

17/03/2016




Escrevi isso num dia que acordei chorando e com um sentimento enorme de desesperança. Chorei por cerca de 2 horas e o sol nem havia nascido ainda. Mas depois ele nasceu. Assim como minha esperança renasceu em meu peito dolorido.

O Vazio existe, mas quanto mais atenção nós damos a ele, maior ele se torna. Mas também não podemos ignorá-lo, pois isso também lhe dá força. Sentimentos ignorados e reprimidos, costumam ficar muito zangados.

Estou procurando aprender a lidar com eles. E tentando mostrar educadamente para o Sr. Vazio, para A Sra. Desesperança, para a Madame Depressão e a Srta. Paranóia, que eles realmente estão certos, em alguns aspectos, mas também que estão muito, mas MUITO LONGE, de serem os DONOS DA VERDADE.

Nesse dia minha forma de lidar foi:

Senti vontade de chorar, chorei.

Senti vontade de me machucar, ESCREVI. Sobre os sentimentos que me afligiam. E eles tiveram seu momento de diálogo, de atenção e até carinho e ficaram mansinhos de novo colocando-se no seu devido lugar.

E passou. Eu melhorei e estou aqui para escrever.

Beijos aos que lerem.
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domingo, 3 de abril de 2016

Príncipe Encantado?



Eu, quando era pequeno, e depois adolescente, nas horas em que não estava pensando em morrer, tinha a fantasia de que um dia ia encontrar um príncipe encantado que me resgataria do meu sofrimento e me levaria para seu reino, onde seríamos felizes para sempre. Ele seria mais alto que eu, rico, corpulento (nem musculoso, nem gordo), e teria olhos e cabelos claros. Sei que meu gosto era meio preconceituoso, mas infelizmente eu era influenciado pelo padrão estético vigente na época, da sociedade em que vivia. Hoje sou muito mais eclético nas minhas fantasias e no meu gosto para homens também.

Até conhecer o meu amigo, que depois virou namorado, havia parado de fantasiar com um príncipe. Principalmente depois da experiência que tive com meu ex.

Para namorar meu amigo, abdiquei do fantasma do meu ex. Quando tomei a decisão, não sabia se conseguiria manter a promessa de apagar os rastros, as lembranças boas, pois é bom guardar as ruins para uso futuro, e principalmente, a parte doentia do relacionamento, a co-dependência. Porém consegui, hoje ele é passado. Ou talvez não exatamente, mas pelo menos virou apenas um conhecido. Mesmo que às vezes meu coração sangre, só um pouquinho, seja pela idéia de que talvez nós tenhamos uma missão na vida um do outro ainda, ou seja, por isso ser apenas uma seqüela de uma relação obsessiva e co-dependente.

Acabei tendo contato com ele, por tê-lo visto num aplicativo de conhecer gente, o Badoo. EU dei like para o perfil dele, no jogo de encontros, só para ver o que acontecia (SHAME ON ME) e me deu like também. Eu pensei: “Ele pode ter mudado, pode ter amadurecido, assim como ocorreram um monte de acontecimentos transformadores em minha vida, pode ter ocorrido na dele também. Bastaram 4 ou 5 conversas para concluir que isso não ocorrera. Entretanto eu estava falando de príncipes, logo, isso exclui meu ex do assunto. Ele nunca foi um príncipe exceto na minha cabecinha perturbada. Digo isso, pois, me curei do mal de idealizar a relação que tivemos, que nunca foi da forma que eu preferia lembrar. Isso ficou ainda mais claro depois que a relação com meu amigo ficou realmente séria.
Foi aí, que comecei a acreditar novamente que príncipes existiam. Mesmo que fossem príncipes improváveis, como meu amigo. Falo amigo, pois mesmo depois de inúmeros acontecimentos, e independente de qualquer outro posto que ele tenha ocupado em minha vida, a amizade sempre perdurou. Ele nunca deixou de ser meu amigo.

Nós namoramos, brigamos, tivemos uma separação de 1 mês, voltamos a namorar e, além de me ensinar muita coisa, ele me deu muito suporte, antes, durante e depois das cirurgias.
Ele foi, dentre todos os namorados que já tive, o que mais se aproximou da figura do príncipe encantado idealizada na infância. Talvez não fisicamente, mas na forma como lidava comigo, interagia, cuidava. Até mimava. Ele era uma das pessoas mais generosas, que conheço, adorava dar presentes. Realizou um sonho meu que eu jamais imaginei que realmente se realizaria. Eu sempre adorei bichinhos de pelúcia e quando era criança e via aqueles ursos gigantes, alguns maiores do que eu, eu primeiro sonhei em ganhar dos meus pais. Quando fui crescendo, o sonho modificou-se. Achava que o gesto mais romântico que um namorado poderia fazer, seria me presentear com um bicho de pelúcia gigante.

Então fiquei adulto. Vi que esse sonho não iria se realizar. Ledo engano. Meu amigo, meu príncipe improvável, me presenteou não com um, mas dois ursos gigantes, em anos consecutivos, de dia dos namorados. Ambos gigantes, o segundo ainda maior que o primeiro. Pode parecer besteira, ridículo, mas para mim, foi a realização de um sonho. Fora todos outros animais de pelúcia de tamanho normal, um mais fofo que o outro, que ele me deu ao longo do namoro.

Mas isso não é O mais importante. O mais importante é que ele de todos os namorados que tive, acho que ele foi o que mais me amou. E ele não apenas me amava, ele ME DAVA esse AMOR. Amor altruísta, amor REAL. E olha que ele me viu no pior dos buracos. E agüentou coisas, não sei nem quero saber como, que eu não sei se agüentaria. A bolsa de colostomia. E não só ela, mas depois das cirurgias todas, quando virei um “ser assexuado”. Eu me sentia virgem de novo. Na verdade eu me sentia uma criança. Uma criança grande e muito feia, insatisfeita com seu novo corpo. Somente agora estou me redescobrindo, mas faz mais de 2 anos e meio que não sei o que é ter vida sexual. O Príncipe Improvável e eu ainda tentamos, mas não estava nem um pouco preparado, ou sentindo-me minimamente sensual ou sexual com meu corpo. Eu me sentia mal, desconfortável. Não com ele, comigo mesmo. Ele me respeitou, me compreendeu e disse que teria paciência.

O que aconteceu foi que no meio de 2013 eu terminei com ele. Estava ainda muito deprimido, e sentia que precisava libertá-lo, pois me sentia desesperançado de um dia voltar a ter uma relação que ultrapassasse o nível emocional, e englobasse o aspecto físico. E mesmo que ele não me pressionasse, existia uma pressão. Pelo simples fato de sermos namorados. Então, terminamos.

Continuamos amigos. Ele ainda vinha me visitar toda semana, conversávamos e até comecei a me sentir diferente, às vezes sentia desejo por ele, mesmo que nós não fizéssemos nada a respeito. Ficamos assim até março de 2014, quando tudo mudou.

No meio de março ele foi à emergência do hospital da cidade dele, por conta de dores que vinha sentindo cada vez mais fortes. Eu já sabia dessas dores. Na última visita que ele me fez, ele já a sentia. Mas ele sentir dores não era daquele mês, daquele ano ou do anterior. Fazia um bom tempo que eu dizia para ele ir ao médico ver o que era. Ele dizia que iria, mas a verdade é que o mundo real não é assim. Por pior q que seja a dor, você que seja a dor, a gente sempre pensa que não é nada. Estamos ocupados demais para cuidar dela. Toma uns Dorflex que passa. Você ignora, sublima, pois tem pensar no tempo que vai perder, no emprego, nas tarefas de casa, no péssimo atendimento do SUS e de muitos hospitais particulares, nas filas, ainda na possibilidade de não ser nada e você ter desperdiçado seu tempo e energia só por causa de uma “dorzinha de nada”. São tantos fatores, que muita gente acaba desistindo. E o pior é que eu mesmo olho a minha volta: todo mundo tem uma dorzinha e relaxante muscular é bala.

No caso do meu amigo, namorado, companheiro, príncipe improvável, não era apenas uma dorzinha. Era câncer. De acordo com os médicos, galopante. Um mês. Quase um mês. Meio de março a 11 de abril de 2014.

Quanto tempo é necessário para se despedir de uma das pessoas mais incríveis, bonitas, bondosas, generosas, carinhosas, delicadas, sensíveis, gentis e especiais de sua vida.
Quanto tempo é preciso para aceitar que ela está partindo?

Quanto tempo é necessário para encontrar as palavras certas e encorajadoras, para dizer a essa pessoa, enquanto você vê a vida dela sendo sugada, minuto a minuto, segundo a segundo, até não haver nada além de uma casca vazia e inútil. Que um dia foi um corpo, uma pessoa, um ser humano. Que um dia me abraçou e dormiu ao meu lado.

Não importa quanto tempo é necessário para tudo isso. A vida é impiedosa, não pergunta quanto tempo é preciso ou não. Ela me deu menos de um mês. E a despedida teve que ser para um boneco de cera, completamente entubado, que apenas movia o peito, num arremedo de respiração, por causa das máquinas. Que já não tinha o mais importante: A centelha de VIDA, o espírito, a alma, a sua linda essência. Apenas uma carcaça. Isso não saia da minha cabeça. Mesmo no enterro. Aquilo não poderia ser ele, não aquele horrendo boneco de cera. Era tudo uma mentira, uma farsa. Mas eu sabia que não era.

Meu príncipe improvável não estava mais aqui. Restaram eu, minhas culpas e meu luto.
Também restaram muitos arrependimentos, por não tê-lo amado MAIS, não tê-lo valorizado tanto quanto ele merecia, por tê-lo machucado com palavras e ações, algumas vezes sem que ele tivesse dado nenhum motivo.
Sei que devo levar isso tudo como aprendizado, entretanto há horas que sinto que os arrependimentos vão me soterrar, e que a falta dele e a imutabilidade disso tudo vai fazer meu coração explodir de dor.
Depois de escrever tudo isso, algo na minha percepção sobre príncipes mudou.
Meu namorado não era alto, nem rico, nem nós vivemos felizes para sempre, como idealizei e costuma-se esperar de um príncipe encantado. Mas mesmo assim ele tinha tantas outras qualidades, e ações, que se enquadrava na figura de um príncipe. Por isso quando escrevia sobre ele no outro BLOG, chamava-o de príncipe improvável. Mas pensando bem, príncipes não vem à Terra para apenas dar o ar de sua graça e, com sua luz, mudar vida de todo mundo que cruzar seu caminho, para logo depois partir novamente. Creio que aqueles que se encaixam melhor nessa descrição, são os ANJOS.
Talvez ele não fosse meu príncipe, enfim. Ele era um anjo. Meu anjo. E agradeço a ele e a Deus, por ele ter existido na minha vida.
Beijos aos que lerem.
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